Olhou para frente. O espelho do banheiro. Ás vezes era preciso. Olhar para frente. Há pouco havia falado com a mulher que amava, por telefone. A voz dela soou irritada. Se tivessem se demorado mais três minutos na conversa teriam discutido. Os momentos em que as vozes soavam irritadas eram bons. O amor não necessitava da frase “eu te amo”. Era intenso, palpável, visível – o que sentiam um pelo outro. As discussões costumavam machucá-los, principalmente a ela. Olhou para frente. Distraiu-se observando o azul desbotado de sua blusa. Sua figura no espelho sempre o surpreendia. O azul era morto, assim como um veludo muito velho e embolorado. Escovaria os dentes, voltaria para sua mesa de trabalho. Pensaria em mascar um chiclete ou chupar uma bala ou comer um pedaço do bolo que sobrara do café da manhã e estava adormecido na geladeira – acabaria por roubar um bombom da mesa de Clélia. Clélia a-sorrir-diria-sem-fechar-a-boca: “Danado! ( p a u s a) Pega mais um, pega”. O homem passaria a tarde caindo de sono. Sono de quem acorda quatro horas da manhã, vive mal, ganha pouco e é consideravelmente feliz.
A visão de sua blusa no espelho havia hipnotizado-o. Instalou-se no homem ou no banheiro um instante absolutamente lispectoriano. Vontade de existir no azul triste, existir no que já foi. Uma vontade terrível de passado. E como isso o cansava – o passado. Repassado, recontado, relembrado. Redoído. Pensou suavemente no menino. Jamais diria a Leila sobre o menino. Não que ela não fosse compreender. A mulher não sentia ciúmes. E costumava entender a morte. Não contaria nunca nem a ela nem a ninguém, pois era impossível dividir aquilo. E era preciso não pensar – para esquecer ou transformar aquele passado em nada. Por quantas noites Raul ainda lhe masturbaria no metrô? Quantas vezes ainda acordaria banhado no sangue da quase criança? Um sangue de vermelho doloroso e cheiro enjoado, a textura de vida que não se acaba. Não se acaba. Depois do gozo o ato sexual se acaba para os homens, e eles não mais se beijam ou sentem carinho um pelo outro, sequer se abraçam. Sentem um nojo leve. O amor entre dois homens é sempre um tanto bruto e irracional e menos amor. O sangue não se acaba, pelo peito, as coxas, a barriga e o sexo; o corpo tranquilamente morto ao lado. Vermelho enferrujado e ainda vivo não se acaba. Azul. Sua blusa não era tão velha como aparentava. Evitou mirar seu rosto. A intensidade da cor ainda o entretinha. Odiava o reflexo de seu rosto, sempre o decepcionava. Sempre uma expressão verde-amarelada, mal-humorada, quase rabugenta. Não entendia o porquê de suas feições não acompanharem seus sentimentos, dentro de si havia tanto amor, alguma alegria, uma esperança; uma coisa meio como quase uma felicidade estúpida. Mas em sua face aquilo – cara de quem tem apanhado desde que nasceu. E a vida nunca lhe batera e sempre até lhe fora boa. Gosto de boca mordida. Ódio. Ódio mesmo só sentia por seus pais.
– Você tem cara de quem nasceu rico.
– Você... Você também.
– Por que você trabalha tanto, se nasceu rico?
– Briguei com meus pais. Faz um ano, um pouco mais...
Veio um silêncio agradável. Por que as palavras nem sempre acompanham o que sentimos. Quase sempre o silêncio é mais comunicativo. Os dois preferiam assim: um silêncio grande e sem beijos, onde soubessem que se desejavam.
– Raul... Não acho que Raul é nome pra um menino da sua idade.
– Acha feio?
– Um nome forte.
O homem passou a boca pela nuca de Raul, l e n t a m e n t e. E houve um anúncio e passaram-se mil anos, tudo imobilizado e desesperadamente vivo. O menino deixou-se abraçar por trás, aquela boca um tanto úmida a sugar-lhe a nuca devagarzinho. Ah, tudo que ele desejava: sentir-se amado e diluído em meio à claridade irritante do quarto, que os braços e pêlos se percorressem lambendo-se todos. Que as línguas, bundas e pênis se encontrassem pacientes, num carnaval todo azul brilhante. Que ofegante o outro lhe machucasse, penetrando-o apenas assim: com a força de um homem. _______________................
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Desejava agora menos que o sexo, queria o desejo, o calor, a falta de sentido que a hipersensibilidade dos sentidos traz em momentos extremos como este, i n f i n i t a m e n t e.
– Ah bebê, quanto mais dor você sente... Mais prazer você me dá. Não é injusto?
O sol continuava o mesmo dentro do quarto, constante, amarelo. Já o nojo leve existia entre eles. Uma tensão e um suor agora gelado pelo corpo de Raul; corpo tão magro e interessante em suas formas. Percebia-se tudo em seu corpo, ele não cabia apenas em si. Como é possível uma coisa larga, flexível, prolixa: alma. Como é possível uma alma contentar-se apenas em ocupar um corpo? Uma alma quer estar dentro de tudo, fazer parte de tudo... Entrar pelas paredes e pelo chão, entrelaçar-se ao plástico mais duro, à borracha mais barata. Vagar em meio a sistemas virtuais. Possuir outros corpos, abraçar outras almas. Com uma faca na mão direita e a mão esquerda estendida toda solícita: não as mãos comuns, as mãos da alma. Arranhar todas as superfícies, as mais imundas, as mais lisas, as mais negras, as mais neutras... Ter um pedaço de tudo dentro do eu. O corpo de Raul tão branco, pêlos grossos e negros, longos. Deslizou a mão esquerda e pequena pelo peito do outro com afeto, passou-a pela barriga e fez uma carícia breve.
Azul. Azul. Azul.
Olhou para trás. Ás vezes seus movimentos e gestos, como aquele virar-se para trás, eram surpreendentemente precisos. Olhar para trás. Um companheiro de trabalho, que ocupava a baia vizinha, acabara de entrar no banheiro e o observava num cumprimento esquisito silencioso.
- Pensando na vida?
- Não. O contrário.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
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PUTA QUE PARIU, FERNANDO!Quanta sensibilidade, autênticidade.
ResponderExcluirTo surpresa...De um jeito bom! Genial!É tudo o que tenho a dizer.
Apaixonante! Esse menino é apaixonante mesmo!
ResponderExcluirFeeeee, atualiza!Você escreve tão bem.... Cansei de vir aqui cheia de esperanças e voltar decorando este conto, do tanto que já reli!
ResponderExcluirMuitos beijos pro'cê com muito muito carinho e saudades. Te cuida!