domingo, 21 de março de 2010

FLORES HORIZONTAIS

Lembro de um poema seu. Um trecho. Me desculpa trazer tanta coisa perdida. Não queria trazer tanto peso nesse abraço. E eu que pensei que não soubesse sentir saudade. Sabe o que aprendi nesse tempo que fiquei sozinho? A rir. Eu vi na tevê uma estória muito interessante. Acho que nem sei contar. Eu contando você não vai achar engraçado.
Sobre uma mulher que gostava muito da natureza. Um dia ela encontrou um anão muito velho que deu para ela umas sementes amaldiçoadas. A mulher, que gostava de apertar terra molhada nas mãos e que regava plantas com a própria saliva, semeou, regou, esperou. E ela cuspia muito encima porque não brotava nada. Depois de uns meses, um tempo, não sei. Nasceram. Flores engraçadas, esquisitas, venenosas, horizontais. Não cresciam pro’ alto. Pro’ céu! Pro’ sol. Acho que elas eram um pouco humanas. Eu lembro de um trecho de poema seu. Falava de uma flor, uma azaléia.

Azaléia rosa e perfumada que secou
Outro amor banal que chega ao fim
A solidão que se prolonga, arranha e seca o pranto

Você já escreveu uma ou outra coisa bonita. Saudade do tempo que eu tava aqui. Você escrevia e eu não via tanta tevê. Assisti na tevê o programa de uma mulher loura que falava de muitas coisas. Ela leu uma mensagem, meio religiosa ou de auto-ajuda, não sei. Ela olhou bem para a câmera e perguntou quantas pessoas eu amo e como tenho mostrado isso a elas. Abaixei a cabeça e lembrei de você e fiquei sem pensar em nada. Depois me veio na cabeça a estória do anão e das flores horizontais. Ahhh eu trouxe uma coisa pra você! Escuras flores puras putas suicidas sentimentais.

[ A partir da voz de Elza Soares no poema de Oswald de Andrade musicado por um tal Zé Miguel Wisnik. ]

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