domingo, 21 de março de 2010

O engraçado é que eu to sempre descobrindo e esquecendo o quanto eu gosto de atuar.

Eu não sei o que eu quero fazer no teatro.
Mas sei que não é nada do que eu tenho feito. Também não está muito perto de nada que eu tenha assistido ou lido. Sei lá...

O que eu penso de um teatro sincero existe na minha cabeça de forma abstrata. Talvez porque esses pensamentos só façam sentido se forem tranformados em prática, na sala de ensaio. Mas não sei com quem. Nem como.

É uma sede de coletivo, de verdades e inquietações partilhadas... De que a cena seja essencialmente um lugar de risco, sem regras que limitem a criação.

Eu preciso estar em risco. A entrega é um encontro difícil e que se atinge lentamente. Para existir esse encontro é preciso que o ator esteja relaxado e a vontade em cena, ainda que esse seja necessariamente um lugar perigoso.


Eu sou tímido. E quando eu comecei a fazer teatro na escola, na 7ª série, a gente fazia muitas apresentaçõezinhas e era um puta sofrimento. Umas 80 pessoas no público por apresentação, sei lá, e eu morto morto morto de vergonha... Mesmo nas experiências que eu tive com teatro antes disso, sempre foi muito sofrido pra mim a coisa de estar na frente de um monte de gente que espera que você diga algo, que você faça gestos, que você se mova... Claro que isso mudou bastante. Mas a essência desse sofrimento ainda existe em mim. E talvez esse seja o meu prazer maior em representar. Um sofrimento que é pura vergonha e timidez. A sensação de estar num campo absolutamente aberto a criação, a principio, deve ser parecido com isso. Depois deve ser um prazer mais simples.

O engraçado é que eu to sempre descobrindo e esquecendo o quanto eu gosto de atuar.

FLORES HORIZONTAIS

Lembro de um poema seu. Um trecho. Me desculpa trazer tanta coisa perdida. Não queria trazer tanto peso nesse abraço. E eu que pensei que não soubesse sentir saudade. Sabe o que aprendi nesse tempo que fiquei sozinho? A rir. Eu vi na tevê uma estória muito interessante. Acho que nem sei contar. Eu contando você não vai achar engraçado.
Sobre uma mulher que gostava muito da natureza. Um dia ela encontrou um anão muito velho que deu para ela umas sementes amaldiçoadas. A mulher, que gostava de apertar terra molhada nas mãos e que regava plantas com a própria saliva, semeou, regou, esperou. E ela cuspia muito encima porque não brotava nada. Depois de uns meses, um tempo, não sei. Nasceram. Flores engraçadas, esquisitas, venenosas, horizontais. Não cresciam pro’ alto. Pro’ céu! Pro’ sol. Acho que elas eram um pouco humanas. Eu lembro de um trecho de poema seu. Falava de uma flor, uma azaléia.

Azaléia rosa e perfumada que secou
Outro amor banal que chega ao fim
A solidão que se prolonga, arranha e seca o pranto

Você já escreveu uma ou outra coisa bonita. Saudade do tempo que eu tava aqui. Você escrevia e eu não via tanta tevê. Assisti na tevê o programa de uma mulher loura que falava de muitas coisas. Ela leu uma mensagem, meio religiosa ou de auto-ajuda, não sei. Ela olhou bem para a câmera e perguntou quantas pessoas eu amo e como tenho mostrado isso a elas. Abaixei a cabeça e lembrei de você e fiquei sem pensar em nada. Depois me veio na cabeça a estória do anão e das flores horizontais. Ahhh eu trouxe uma coisa pra você! Escuras flores puras putas suicidas sentimentais.

[ A partir da voz de Elza Soares no poema de Oswald de Andrade musicado por um tal Zé Miguel Wisnik. ]