Os primeiros dias
evitou o abraço. Sabia que deveria dividir qualquer possibilidade de afeto em muitos pequenos gestos de modo a preencher a eternidade que cabe numa vida.Todo gesto pequenino e lento. Fração complexa de coisa imaterial e portanto impossível de ser medida. Limitou-se a lançar um olhar de soslaio. Até a visão do ser amado deveria ser evitada.
"Ser amado". Não convém aqui falar em amor, já que esse sentimento é inevitavelmente associado a clichês românticos e limitado por aspectos morais pertencentes a determinada organização social. Tratamos aqui de níveis subjetivos complexos da compreensão possível entre duas criaturas que respiram. Relações de conhecimento que se travam em campos sutis e obedecem rigorosamente a leis físicas de energia. Ciência pura.
Ela não pôde mais conter a coceira que a incomodava a pelos menos três noites e três dias - pulgas piolhos, imaginou. Deixou com suas unhas crescidas um rastro de sangue na coxa branca. O que verdadeiramente importava a ela era a respiração do outro na cama. Será que também estava acordado? Sabia que deveria economizar também palavras.
Evitou pensar no caminho percorrido até aquela cama. Um longo trajeto de sorrisos, abraços, rosários, ave-marias, amigos, o trabalho agradável na fábrica, o processo repentino por meio do qual tudo foi destituído de sentido.
Revira-se.Espreguiça-se. Inspira fundo o cheiro de mofo. Os dedos manchados de sangue tremem, todo o corpo manchado de leve vertigem e coisa parecida com esperança treme.
A vida se resume agora a esse quarto de hotel barato - com lençol furado, colchão velho sujo rasgado, paredes com infiltração e rachaduras, banheiro repleto de manchas vestígios suspeitos. O hóspede tem direito a um preservativo, um pequeno sabonete e uma toalha encardida.
Mas eis que, exclamação, o celular de nossa heroína toca. Depois de tantas noites e dias, talvez cinco, talvez mais, pela primeira vez um resquício da antiga rotina com a qual o casal preenchia a vida invade esse retiro pouco espiritual mas muito edificante a que eles se submetem. Ela observa o aparelho, deixa tocar durante um minuto e vinte segundos, depois atende. Alô
Antes do começo
8:00h Ela passa o cartão de ponto. Atravessa a catraca. Cumprimenta sem muita intimidade as colegas de trabalho.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
domingo, 17 de outubro de 2010
O QUE PERMANECE IMÓVEL NÃO PODE SER DIVINO
"Quando executamos alguma coisa estamos apenas repetindo o que os outros fizeram, dispersamos energia e ficamos vazios. Mas quando criamos estamos absorvendo toda a energia que há na Terra e nos céus, crescemos em nós mesmos, e só teremos é que suportar essa grandeza para que não nos destrua, e é preciso ter cuidado."
Moacir C Lopes - A ostra e o vento
Moacir C Lopes - A ostra e o vento
sábado, 2 de outubro de 2010
Verde Valsa
Posso escrever
E poetizar
..............Mas não me convém
..............Posso arder
.......E posso amar
Mas deconheço o caminho
Em meu vasto
Vazio interior
Onde não habita a
...............Poesia
Onde não habita o
...............Amor,
É lá que se passa
Esta divina dança,
.............Valsando
.............Lentamente,
Pequeninos e coloridos
Pedacinhos
.................de esperança.
E poetizar
..............Mas não me convém
..............Posso arder
.......E posso amar
Mas deconheço o caminho
Em meu vasto
Vazio interior
Onde não habita a
...............Poesia
Onde não habita o
...............Amor,
É lá que se passa
Esta divina dança,
.............Valsando
.............Lentamente,
Pequeninos e coloridos
Pedacinhos
.................de esperança.
domingo, 26 de setembro de 2010
*
"Mas para você revelo humilde: o que importa é a Senhora Dona Vida, coberta de ouro e prata e sangue e musgo do Tempo e creme chantilly ás vezes e confetes de algum carnaval, descobrindo pouco a pouco seu rosto horrendo e deslumbrante."
Caio F Abreu
Caio F Abreu
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
domingo, 19 de setembro de 2010
essa Roda que gira em êxtase - 1º movimento

Quando de repente sua vida tem (quase) todos os elementos necessários pra se tornar uma tragédia muito bem estruturada? Hein? E o parênteses e o negrito são um paradoxo da esperança.
O patético tá super relacionado com a Tragédia. Claro ! Dizem que "tragédia é a coisa mais fácil". E parece que é mesmo.
O menino tava num mau momento. Uma discussão familiar patética. Possibilidades devastadoras e terríveis. Possibilidade de alma quebrada e breve, curta. Alma não, corpo. Ele não sentia culpa mas muito medo. Porque é uma inclinação natural de todo aquele que vive defender sua vida. Assim como existe uma inclinação (auto) destrutiva em todo ser vivo. Outro paradoxo? Ah pra quê evocar cenas de tragédia anônima e cotidiana? Ou podemos mesmo falar em melodrama - ás vezes é preciso ser raso.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
azul desbotado no espelho do banheiro
Olhou para frente. O espelho do banheiro. Ás vezes era preciso. Olhar para frente. Há pouco havia falado com a mulher que amava, por telefone. A voz dela soou irritada. Se tivessem se demorado mais três minutos na conversa teriam discutido. Os momentos em que as vozes soavam irritadas eram bons. O amor não necessitava da frase “eu te amo”. Era intenso, palpável, visível – o que sentiam um pelo outro. As discussões costumavam machucá-los, principalmente a ela. Olhou para frente. Distraiu-se observando o azul desbotado de sua blusa. Sua figura no espelho sempre o surpreendia. O azul era morto, assim como um veludo muito velho e embolorado. Escovaria os dentes, voltaria para sua mesa de trabalho. Pensaria em mascar um chiclete ou chupar uma bala ou comer um pedaço do bolo que sobrara do café da manhã e estava adormecido na geladeira – acabaria por roubar um bombom da mesa de Clélia. Clélia a-sorrir-diria-sem-fechar-a-boca: “Danado! ( p a u s a) Pega mais um, pega”. O homem passaria a tarde caindo de sono. Sono de quem acorda quatro horas da manhã, vive mal, ganha pouco e é consideravelmente feliz.
A visão de sua blusa no espelho havia hipnotizado-o. Instalou-se no homem ou no banheiro um instante absolutamente lispectoriano. Vontade de existir no azul triste, existir no que já foi. Uma vontade terrível de passado. E como isso o cansava – o passado. Repassado, recontado, relembrado. Redoído. Pensou suavemente no menino. Jamais diria a Leila sobre o menino. Não que ela não fosse compreender. A mulher não sentia ciúmes. E costumava entender a morte. Não contaria nunca nem a ela nem a ninguém, pois era impossível dividir aquilo. E era preciso não pensar – para esquecer ou transformar aquele passado em nada. Por quantas noites Raul ainda lhe masturbaria no metrô? Quantas vezes ainda acordaria banhado no sangue da quase criança? Um sangue de vermelho doloroso e cheiro enjoado, a textura de vida que não se acaba. Não se acaba. Depois do gozo o ato sexual se acaba para os homens, e eles não mais se beijam ou sentem carinho um pelo outro, sequer se abraçam. Sentem um nojo leve. O amor entre dois homens é sempre um tanto bruto e irracional e menos amor. O sangue não se acaba, pelo peito, as coxas, a barriga e o sexo; o corpo tranquilamente morto ao lado. Vermelho enferrujado e ainda vivo não se acaba. Azul. Sua blusa não era tão velha como aparentava. Evitou mirar seu rosto. A intensidade da cor ainda o entretinha. Odiava o reflexo de seu rosto, sempre o decepcionava. Sempre uma expressão verde-amarelada, mal-humorada, quase rabugenta. Não entendia o porquê de suas feições não acompanharem seus sentimentos, dentro de si havia tanto amor, alguma alegria, uma esperança; uma coisa meio como quase uma felicidade estúpida. Mas em sua face aquilo – cara de quem tem apanhado desde que nasceu. E a vida nunca lhe batera e sempre até lhe fora boa. Gosto de boca mordida. Ódio. Ódio mesmo só sentia por seus pais.
– Você tem cara de quem nasceu rico.
– Você... Você também.
– Por que você trabalha tanto, se nasceu rico?
– Briguei com meus pais. Faz um ano, um pouco mais...
Veio um silêncio agradável. Por que as palavras nem sempre acompanham o que sentimos. Quase sempre o silêncio é mais comunicativo. Os dois preferiam assim: um silêncio grande e sem beijos, onde soubessem que se desejavam.
– Raul... Não acho que Raul é nome pra um menino da sua idade.
– Acha feio?
– Um nome forte.
O homem passou a boca pela nuca de Raul, l e n t a m e n t e. E houve um anúncio e passaram-se mil anos, tudo imobilizado e desesperadamente vivo. O menino deixou-se abraçar por trás, aquela boca um tanto úmida a sugar-lhe a nuca devagarzinho. Ah, tudo que ele desejava: sentir-se amado e diluído em meio à claridade irritante do quarto, que os braços e pêlos se percorressem lambendo-se todos. Que as línguas, bundas e pênis se encontrassem pacientes, num carnaval todo azul brilhante. Que ofegante o outro lhe machucasse, penetrando-o apenas assim: com a força de um homem. _______________................
..................................................________________________________________________________
Desejava agora menos que o sexo, queria o desejo, o calor, a falta de sentido que a hipersensibilidade dos sentidos traz em momentos extremos como este, i n f i n i t a m e n t e.
– Ah bebê, quanto mais dor você sente... Mais prazer você me dá. Não é injusto?
O sol continuava o mesmo dentro do quarto, constante, amarelo. Já o nojo leve existia entre eles. Uma tensão e um suor agora gelado pelo corpo de Raul; corpo tão magro e interessante em suas formas. Percebia-se tudo em seu corpo, ele não cabia apenas em si. Como é possível uma coisa larga, flexível, prolixa: alma. Como é possível uma alma contentar-se apenas em ocupar um corpo? Uma alma quer estar dentro de tudo, fazer parte de tudo... Entrar pelas paredes e pelo chão, entrelaçar-se ao plástico mais duro, à borracha mais barata. Vagar em meio a sistemas virtuais. Possuir outros corpos, abraçar outras almas. Com uma faca na mão direita e a mão esquerda estendida toda solícita: não as mãos comuns, as mãos da alma. Arranhar todas as superfícies, as mais imundas, as mais lisas, as mais negras, as mais neutras... Ter um pedaço de tudo dentro do eu. O corpo de Raul tão branco, pêlos grossos e negros, longos. Deslizou a mão esquerda e pequena pelo peito do outro com afeto, passou-a pela barriga e fez uma carícia breve.
Azul. Azul. Azul.
Olhou para trás. Ás vezes seus movimentos e gestos, como aquele virar-se para trás, eram surpreendentemente precisos. Olhar para trás. Um companheiro de trabalho, que ocupava a baia vizinha, acabara de entrar no banheiro e o observava num cumprimento esquisito silencioso.
- Pensando na vida?
- Não. O contrário.
A visão de sua blusa no espelho havia hipnotizado-o. Instalou-se no homem ou no banheiro um instante absolutamente lispectoriano. Vontade de existir no azul triste, existir no que já foi. Uma vontade terrível de passado. E como isso o cansava – o passado. Repassado, recontado, relembrado. Redoído. Pensou suavemente no menino. Jamais diria a Leila sobre o menino. Não que ela não fosse compreender. A mulher não sentia ciúmes. E costumava entender a morte. Não contaria nunca nem a ela nem a ninguém, pois era impossível dividir aquilo. E era preciso não pensar – para esquecer ou transformar aquele passado em nada. Por quantas noites Raul ainda lhe masturbaria no metrô? Quantas vezes ainda acordaria banhado no sangue da quase criança? Um sangue de vermelho doloroso e cheiro enjoado, a textura de vida que não se acaba. Não se acaba. Depois do gozo o ato sexual se acaba para os homens, e eles não mais se beijam ou sentem carinho um pelo outro, sequer se abraçam. Sentem um nojo leve. O amor entre dois homens é sempre um tanto bruto e irracional e menos amor. O sangue não se acaba, pelo peito, as coxas, a barriga e o sexo; o corpo tranquilamente morto ao lado. Vermelho enferrujado e ainda vivo não se acaba. Azul. Sua blusa não era tão velha como aparentava. Evitou mirar seu rosto. A intensidade da cor ainda o entretinha. Odiava o reflexo de seu rosto, sempre o decepcionava. Sempre uma expressão verde-amarelada, mal-humorada, quase rabugenta. Não entendia o porquê de suas feições não acompanharem seus sentimentos, dentro de si havia tanto amor, alguma alegria, uma esperança; uma coisa meio como quase uma felicidade estúpida. Mas em sua face aquilo – cara de quem tem apanhado desde que nasceu. E a vida nunca lhe batera e sempre até lhe fora boa. Gosto de boca mordida. Ódio. Ódio mesmo só sentia por seus pais.
– Você tem cara de quem nasceu rico.
– Você... Você também.
– Por que você trabalha tanto, se nasceu rico?
– Briguei com meus pais. Faz um ano, um pouco mais...
Veio um silêncio agradável. Por que as palavras nem sempre acompanham o que sentimos. Quase sempre o silêncio é mais comunicativo. Os dois preferiam assim: um silêncio grande e sem beijos, onde soubessem que se desejavam.
– Raul... Não acho que Raul é nome pra um menino da sua idade.
– Acha feio?
– Um nome forte.
O homem passou a boca pela nuca de Raul, l e n t a m e n t e. E houve um anúncio e passaram-se mil anos, tudo imobilizado e desesperadamente vivo. O menino deixou-se abraçar por trás, aquela boca um tanto úmida a sugar-lhe a nuca devagarzinho. Ah, tudo que ele desejava: sentir-se amado e diluído em meio à claridade irritante do quarto, que os braços e pêlos se percorressem lambendo-se todos. Que as línguas, bundas e pênis se encontrassem pacientes, num carnaval todo azul brilhante. Que ofegante o outro lhe machucasse, penetrando-o apenas assim: com a força de um homem. _______________................
..................................................________________________________________________________
Desejava agora menos que o sexo, queria o desejo, o calor, a falta de sentido que a hipersensibilidade dos sentidos traz em momentos extremos como este, i n f i n i t a m e n t e.
– Ah bebê, quanto mais dor você sente... Mais prazer você me dá. Não é injusto?
O sol continuava o mesmo dentro do quarto, constante, amarelo. Já o nojo leve existia entre eles. Uma tensão e um suor agora gelado pelo corpo de Raul; corpo tão magro e interessante em suas formas. Percebia-se tudo em seu corpo, ele não cabia apenas em si. Como é possível uma coisa larga, flexível, prolixa: alma. Como é possível uma alma contentar-se apenas em ocupar um corpo? Uma alma quer estar dentro de tudo, fazer parte de tudo... Entrar pelas paredes e pelo chão, entrelaçar-se ao plástico mais duro, à borracha mais barata. Vagar em meio a sistemas virtuais. Possuir outros corpos, abraçar outras almas. Com uma faca na mão direita e a mão esquerda estendida toda solícita: não as mãos comuns, as mãos da alma. Arranhar todas as superfícies, as mais imundas, as mais lisas, as mais negras, as mais neutras... Ter um pedaço de tudo dentro do eu. O corpo de Raul tão branco, pêlos grossos e negros, longos. Deslizou a mão esquerda e pequena pelo peito do outro com afeto, passou-a pela barriga e fez uma carícia breve.
Azul. Azul. Azul.
Olhou para trás. Ás vezes seus movimentos e gestos, como aquele virar-se para trás, eram surpreendentemente precisos. Olhar para trás. Um companheiro de trabalho, que ocupava a baia vizinha, acabara de entrar no banheiro e o observava num cumprimento esquisito silencioso.
- Pensando na vida?
- Não. O contrário.
domingo, 21 de março de 2010
O engraçado é que eu to sempre descobrindo e esquecendo o quanto eu gosto de atuar.
Eu não sei o que eu quero fazer no teatro.
Mas sei que não é nada do que eu tenho feito. Também não está muito perto de nada que eu tenha assistido ou lido. Sei lá...
O que eu penso de um teatro sincero existe na minha cabeça de forma abstrata. Talvez porque esses pensamentos só façam sentido se forem tranformados em prática, na sala de ensaio. Mas não sei com quem. Nem como.
É uma sede de coletivo, de verdades e inquietações partilhadas... De que a cena seja essencialmente um lugar de risco, sem regras que limitem a criação.
Eu preciso estar em risco. A entrega é um encontro difícil e que se atinge lentamente. Para existir esse encontro é preciso que o ator esteja relaxado e a vontade em cena, ainda que esse seja necessariamente um lugar perigoso.
Eu sou tímido. E quando eu comecei a fazer teatro na escola, na 7ª série, a gente fazia muitas apresentaçõezinhas e era um puta sofrimento. Umas 80 pessoas no público por apresentação, sei lá, e eu morto morto morto de vergonha... Mesmo nas experiências que eu tive com teatro antes disso, sempre foi muito sofrido pra mim a coisa de estar na frente de um monte de gente que espera que você diga algo, que você faça gestos, que você se mova... Claro que isso mudou bastante. Mas a essência desse sofrimento ainda existe em mim. E talvez esse seja o meu prazer maior em representar. Um sofrimento que é pura vergonha e timidez. A sensação de estar num campo absolutamente aberto a criação, a principio, deve ser parecido com isso. Depois deve ser um prazer mais simples.
O engraçado é que eu to sempre descobrindo e esquecendo o quanto eu gosto de atuar.

Mas sei que não é nada do que eu tenho feito. Também não está muito perto de nada que eu tenha assistido ou lido. Sei lá...
O que eu penso de um teatro sincero existe na minha cabeça de forma abstrata. Talvez porque esses pensamentos só façam sentido se forem tranformados em prática, na sala de ensaio. Mas não sei com quem. Nem como.
É uma sede de coletivo, de verdades e inquietações partilhadas... De que a cena seja essencialmente um lugar de risco, sem regras que limitem a criação.
Eu preciso estar em risco. A entrega é um encontro difícil e que se atinge lentamente. Para existir esse encontro é preciso que o ator esteja relaxado e a vontade em cena, ainda que esse seja necessariamente um lugar perigoso.
Eu sou tímido. E quando eu comecei a fazer teatro na escola, na 7ª série, a gente fazia muitas apresentaçõezinhas e era um puta sofrimento. Umas 80 pessoas no público por apresentação, sei lá, e eu morto morto morto de vergonha... Mesmo nas experiências que eu tive com teatro antes disso, sempre foi muito sofrido pra mim a coisa de estar na frente de um monte de gente que espera que você diga algo, que você faça gestos, que você se mova... Claro que isso mudou bastante. Mas a essência desse sofrimento ainda existe em mim. E talvez esse seja o meu prazer maior em representar. Um sofrimento que é pura vergonha e timidez. A sensação de estar num campo absolutamente aberto a criação, a principio, deve ser parecido com isso. Depois deve ser um prazer mais simples.
O engraçado é que eu to sempre descobrindo e esquecendo o quanto eu gosto de atuar.

FLORES HORIZONTAIS
Lembro de um poema seu. Um trecho. Me desculpa trazer tanta coisa perdida. Não queria trazer tanto peso nesse abraço. E eu que pensei que não soubesse sentir saudade. Sabe o que aprendi nesse tempo que fiquei sozinho? A rir. Eu vi na tevê uma estória muito interessante. Acho que nem sei contar. Eu contando você não vai achar engraçado.
Sobre uma mulher que gostava muito da natureza. Um dia ela encontrou um anão muito velho que deu para ela umas sementes amaldiçoadas. A mulher, que gostava de apertar terra molhada nas mãos e que regava plantas com a própria saliva, semeou, regou, esperou. E ela cuspia muito encima porque não brotava nada. Depois de uns meses, um tempo, não sei. Nasceram. Flores engraçadas, esquisitas, venenosas, horizontais. Não cresciam pro’ alto. Pro’ céu! Pro’ sol. Acho que elas eram um pouco humanas. Eu lembro de um trecho de poema seu. Falava de uma flor, uma azaléia.
Azaléia rosa e perfumada que secou
Outro amor banal que chega ao fim
A solidão que se prolonga, arranha e seca o pranto
Você já escreveu uma ou outra coisa bonita. Saudade do tempo que eu tava aqui. Você escrevia e eu não via tanta tevê. Assisti na tevê o programa de uma mulher loura que falava de muitas coisas. Ela leu uma mensagem, meio religiosa ou de auto-ajuda, não sei. Ela olhou bem para a câmera e perguntou quantas pessoas eu amo e como tenho mostrado isso a elas. Abaixei a cabeça e lembrei de você e fiquei sem pensar em nada. Depois me veio na cabeça a estória do anão e das flores horizontais. Ahhh eu trouxe uma coisa pra você! Escuras flores puras putas suicidas sentimentais.
[ A partir da voz de Elza Soares no poema de Oswald de Andrade musicado por um tal Zé Miguel Wisnik. ]
Sobre uma mulher que gostava muito da natureza. Um dia ela encontrou um anão muito velho que deu para ela umas sementes amaldiçoadas. A mulher, que gostava de apertar terra molhada nas mãos e que regava plantas com a própria saliva, semeou, regou, esperou. E ela cuspia muito encima porque não brotava nada. Depois de uns meses, um tempo, não sei. Nasceram. Flores engraçadas, esquisitas, venenosas, horizontais. Não cresciam pro’ alto. Pro’ céu! Pro’ sol. Acho que elas eram um pouco humanas. Eu lembro de um trecho de poema seu. Falava de uma flor, uma azaléia.
Azaléia rosa e perfumada que secou
Outro amor banal que chega ao fim
A solidão que se prolonga, arranha e seca o pranto
Você já escreveu uma ou outra coisa bonita. Saudade do tempo que eu tava aqui. Você escrevia e eu não via tanta tevê. Assisti na tevê o programa de uma mulher loura que falava de muitas coisas. Ela leu uma mensagem, meio religiosa ou de auto-ajuda, não sei. Ela olhou bem para a câmera e perguntou quantas pessoas eu amo e como tenho mostrado isso a elas. Abaixei a cabeça e lembrei de você e fiquei sem pensar em nada. Depois me veio na cabeça a estória do anão e das flores horizontais. Ahhh eu trouxe uma coisa pra você! Escuras flores puras putas suicidas sentimentais.
[ A partir da voz de Elza Soares no poema de Oswald de Andrade musicado por um tal Zé Miguel Wisnik. ]
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
macaco que virou homem
Nada grandioso. Interpretação minimalista. O ex-macaco faz o seu relato á uma academia.
Sim Sim o macaco para se tornar humano não teve que aprender muito, apertar mãos, fumar, beber, falar. A questão que realmente me ficou do espetáculo: pra que serve uma grande atriz?
[ comentário de "Comunicação a uma academia" com a Juliana Galdino e um figurante ]
Sim Sim o macaco para se tornar humano não teve que aprender muito, apertar mãos, fumar, beber, falar. A questão que realmente me ficou do espetáculo: pra que serve uma grande atriz?
[ comentário de "Comunicação a uma academia" com a Juliana Galdino e um figurante ]
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Eu entrei num prédio e me lembrei como eu me sentia mal no tempo em que todos os dias eu precisava entrar num prédio e passar 8 horas lá dentro, de segunda a sexta. Nem foi há tanto tempo atrás. Sem exagero... Tudo me deprimia ali. A arquitetura do lugar, o elevador, as pessoas todas tão gentis - bom dia - boa tarde - como você tá querido?, o computador, a cadeira onde eu passava o dia inteiro, a comida no por kilo ou na padaria ou no restaurante rustico. Eu fico mal só de lembrar. Um nó sincero na garganta. Ah como aquilo me doia!
Quando eu tava com uns 12 ou 13 anos eu notei o quanto tenho pouco talendo pra vida. Para a vida no geral.
Mas agora eu acho que não é só isso. Eu não levo jeito pra conviver com pessoas.
Existe gente como eu, não somos tímidos, apenas não temos talento pra conviver.
Acabou um ano e outro começou. E eu na mesma merda. Parado. Sem a mímima idéia de caminhos possíveis.
Um dia o presidente da empresa virou pra mim e perguntou " você vai nos dar o retorno de tudo que estamos investindo em você?" Eu - e nesse momento sim eu me senti VÍTIMA DO CAPITAL, meu deus foi inevitável - respondi: "Sim, claro".
Eu posso não ter ficado na empresa, mas sei que continuo respondendo "sim, claro". E inevitavelmente continuarei.
Quando eu tava com uns 12 ou 13 anos eu notei o quanto tenho pouco talendo pra vida. Para a vida no geral.
Mas agora eu acho que não é só isso. Eu não levo jeito pra conviver com pessoas.
Existe gente como eu, não somos tímidos, apenas não temos talento pra conviver.
Acabou um ano e outro começou. E eu na mesma merda. Parado. Sem a mímima idéia de caminhos possíveis.
Um dia o presidente da empresa virou pra mim e perguntou " você vai nos dar o retorno de tudo que estamos investindo em você?" Eu - e nesse momento sim eu me senti VÍTIMA DO CAPITAL, meu deus foi inevitável - respondi: "Sim, claro".
Eu posso não ter ficado na empresa, mas sei que continuo respondendo "sim, claro". E inevitavelmente continuarei.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
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