
Diário de Marcela:
Saulo é tão importante que está tomando conta de mim inteiramente. Nem posso mais entregar-me aos afazeres normais, auxiliar papai ou Roberto, que logo escuto seu chamado e corro sempre para ele. Vejo-o em todos os cantos da ilha, sinto-o em todas as partes de meu corpo, e espero que os mumbebos, de asas abertas, gritem do coral as horas que farão noite e possa correr para entregar-me a ele na praia. Já não importa que pai ou Roberto esteja ou não dormindo, já nem cuido que presenciem nossa posse.Tal é a ânsia de Saulo por mim e de mim por ele, que o vejo em tudo na ilha. Impregnado na água do córrego, e quando por ela caminho sinto-o penetrando pelo meu cor-po. No toque de sinos que o vento provoca nas fendas dos picos ele me completa de sons que se materializam como se me beijasse os ouvidos, a boca, os olhos, os seios e os cabe-los, então sinto vontade de abrir-me ao vento e deixar que Saulo penetre inteiramente em mim.Tenho que fazer este registro enquanto distingo pelo menos que o vento é ainda vento, o córrego é ainda córrego, o mar ainda mar, que as aves são aves ainda, porque se con-tinuar assim em poucos dias tudo será Saulo e não distingui-rei mais nada e nas páginas deste caderno só repetirei seu nome...
[ a ostra e o vento - Moacir C. Lopes]

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