domingo, 27 de dezembro de 2009

A mulher não olha. Evita imaginar.
O homem estaria ali. Nu.
Meu Deus... por que deixei as janelas de casa todas abertas. Com esse verão terrível, tempo abafado, eu vi no céu nuvens horríveis, pretas... Meu Deus vai chover e molhar tudo. E eu aqui.
Abriu os olhos devagar e não soube se o que sentiu era decepção alívio alegria, não soube se estranhou aquilo.
Mas o homem simplesmente se masturbava. Ela ali tola de olhos fechados esperando a penetração, temendo as janelas abertas. E o amante em seu canto, masturbando-se de olhos fechados numa concentração admirável. Talvez ela devesse se vestir e sair. Chegaria a tempo de trancar a casa - antes que se precipitassem as primeiras gotas de um temporal. Talvez não fosse educado, teria que esperar que ele gozasse, aí então.
Meu Deus, por que esse amante? Não sinto prazer. Nem amizade. Um quase pensamento muito leve brevemente lhe passou pela cabeça. Porque ele me quis.
Não demorou mas pareceu demorar. O homem gozou.
Ela se abandonou e desistiu de ir para casa. Inútil. Já podia sentir a chuva quente e branca lá fora.
Nada de novo existe neste planeta que não se fale aqui na mesa de bar .

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

pré nada

É uma vibração lenta que se apodera do corpo. Tudo muito lento. A essa vibração eu não daria um nome. Fruto do tédio. Das promessas todas. Nascida do fluxo solitário de ódios e sentimentos mais confusos. Dos dias passados em estado de quase febre. O corpo se deixou tomar. Serena e estranhamente, o corpo se deixou. Foi tomado, agora já completamente, por esse pré-estado vermelho que é o ínicio da vibração mais densa. Só os sentimentos mais confusos interessam, vestiremos assim o corpo de abstrações e metáforas inúteis e quase belas. O corpo estará mais nu e satisfeito: necessita de nudez mais sincera. A quase vibração quase lentamente modifica lentamente o quase tédio, nascido em meio ao nada repleto de promessas, ódios, sentimentos mais confusos e um estado de quase febre.
Importa o corpo, e que ele se mantenha assim. Quase aprisionado. Buscando uma intensidade que lhe é absolutamente negada. Na iminência de não sair do lugar. Inércia triste e sem gritos. O corpo se mantém assim. A respiração pouco se modifica. O pré-estado vermelho se mantém. Tudo iminência e quase. Promessa.

[ depois de um dia em casa, desempregado, sozinho, depois de assistir dois filmes, terminar um livro, fazer muitas ligações curtas e ao som dos Beatles ]

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Livros


Diário de Marcela:

Saulo é tão importante que está tomando conta de mim inteiramente. Nem posso mais entregar-me aos afazeres normais, auxiliar papai ou Roberto, que logo escuto seu chamado e corro sempre para ele. Vejo-o em todos os cantos da ilha, sinto-o em todas as partes de meu corpo, e espero que os mumbebos, de asas abertas, gritem do coral as horas que farão noite e possa correr para entregar-me a ele na praia. Já não importa que pai ou Roberto esteja ou não dormindo, já nem cuido que presenciem nossa posse.Tal é a ânsia de Saulo por mim e de mim por ele, que o vejo em tudo na ilha. Impregnado na água do córrego, e quando por ela caminho sinto-o penetrando pelo meu cor-po. No toque de sinos que o vento provoca nas fendas dos picos ele me completa de sons que se materializam como se me beijasse os ouvidos, a boca, os olhos, os seios e os cabe-los, então sinto vontade de abrir-me ao vento e deixar que Saulo penetre inteiramente em mim.Tenho que fazer este registro enquanto distingo pelo menos que o vento é ainda vento, o córrego é ainda córrego, o mar ainda mar, que as aves são aves ainda, porque se con-tinuar assim em poucos dias tudo será Saulo e não distingui-rei mais nada e nas páginas deste caderno só repetirei seu nome...


[ a ostra e o vento - Moacir C. Lopes]