A mulher não olha. Evita imaginar.
O homem estaria ali. Nu.
Meu Deus... por que deixei as janelas de casa todas abertas. Com esse verão terrível, tempo abafado, eu vi no céu nuvens horríveis, pretas... Meu Deus vai chover e molhar tudo. E eu aqui.
Abriu os olhos devagar e não soube se o que sentiu era decepção alívio alegria, não soube se estranhou aquilo.
Mas o homem simplesmente se masturbava. Ela ali tola de olhos fechados esperando a penetração, temendo as janelas abertas. E o amante em seu canto, masturbando-se de olhos fechados numa concentração admirável. Talvez ela devesse se vestir e sair. Chegaria a tempo de trancar a casa - antes que se precipitassem as primeiras gotas de um temporal. Talvez não fosse educado, teria que esperar que ele gozasse, aí então.
Meu Deus, por que esse amante? Não sinto prazer. Nem amizade. Um quase pensamento muito leve brevemente lhe passou pela cabeça. Porque ele me quis.
Não demorou mas pareceu demorar. O homem gozou.
Ela se abandonou e desistiu de ir para casa. Inútil. Já podia sentir a chuva quente e branca lá fora.
domingo, 27 de dezembro de 2009
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
pré nada
É uma vibração lenta que se apodera do corpo. Tudo muito lento. A essa vibração eu não daria um nome. Fruto do tédio. Das promessas todas. Nascida do fluxo solitário de ódios e sentimentos mais confusos. Dos dias passados em estado de quase febre. O corpo se deixou tomar. Serena e estranhamente, o corpo se deixou. Foi tomado, agora já completamente, por esse pré-estado vermelho que é o ínicio da vibração mais densa. Só os sentimentos mais confusos interessam, vestiremos assim o corpo de abstrações e metáforas inúteis e quase belas. O corpo estará mais nu e satisfeito: necessita de nudez mais sincera. A quase vibração quase lentamente modifica lentamente o quase tédio, nascido em meio ao nada repleto de promessas, ódios, sentimentos mais confusos e um estado de quase febre.
Importa o corpo, e que ele se mantenha assim. Quase aprisionado. Buscando uma intensidade que lhe é absolutamente negada. Na iminência de não sair do lugar. Inércia triste e sem gritos. O corpo se mantém assim. A respiração pouco se modifica. O pré-estado vermelho se mantém. Tudo iminência e quase. Promessa.
[ depois de um dia em casa, desempregado, sozinho, depois de assistir dois filmes, terminar um livro, fazer muitas ligações curtas e ao som dos Beatles ]
Importa o corpo, e que ele se mantenha assim. Quase aprisionado. Buscando uma intensidade que lhe é absolutamente negada. Na iminência de não sair do lugar. Inércia triste e sem gritos. O corpo se mantém assim. A respiração pouco se modifica. O pré-estado vermelho se mantém. Tudo iminência e quase. Promessa.
[ depois de um dia em casa, desempregado, sozinho, depois de assistir dois filmes, terminar um livro, fazer muitas ligações curtas e ao som dos Beatles ]
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Livros

Diário de Marcela:
Saulo é tão importante que está tomando conta de mim inteiramente. Nem posso mais entregar-me aos afazeres normais, auxiliar papai ou Roberto, que logo escuto seu chamado e corro sempre para ele. Vejo-o em todos os cantos da ilha, sinto-o em todas as partes de meu corpo, e espero que os mumbebos, de asas abertas, gritem do coral as horas que farão noite e possa correr para entregar-me a ele na praia. Já não importa que pai ou Roberto esteja ou não dormindo, já nem cuido que presenciem nossa posse.Tal é a ânsia de Saulo por mim e de mim por ele, que o vejo em tudo na ilha. Impregnado na água do córrego, e quando por ela caminho sinto-o penetrando pelo meu cor-po. No toque de sinos que o vento provoca nas fendas dos picos ele me completa de sons que se materializam como se me beijasse os ouvidos, a boca, os olhos, os seios e os cabe-los, então sinto vontade de abrir-me ao vento e deixar que Saulo penetre inteiramente em mim.Tenho que fazer este registro enquanto distingo pelo menos que o vento é ainda vento, o córrego é ainda córrego, o mar ainda mar, que as aves são aves ainda, porque se con-tinuar assim em poucos dias tudo será Saulo e não distingui-rei mais nada e nas páginas deste caderno só repetirei seu nome...
[ a ostra e o vento - Moacir C. Lopes]
domingo, 22 de novembro de 2009
Desabafo moderado
Hoje fiquei inquieto. Por tudo. Sexta tivemos a penúltima mostra do ano do vocacional. Ontem teríamos ensaio normal. E hoje fui pro ensaio do Pé de Lama.
Mostra
Mostra
Na primeira mostra em que apresentamos ceninhas do Sete gatinhos eu fiquei feliz - por que eu não esperava tanto. Na hora eu senti uma coisa intensa, na apresentação inteira. Comecei a acreditar que podíamos sim ser um grupo e quem sabe entender a essência do espetáculo.Já passaram umas 6 mostras... E nessa última eu nem sei direito o que senti.
Pela primeira vez mostramos quase todas as cenas que a gente tem. E pela primeira vez o Anderson participou.
Henrique: Ahh vocês tão caminhando... Teve algumas pessoas que falaram muito baixo mesmo. Mas tem que dar nome aos bois: a menininha e não-lembro-mais-quem e ciclano, etc.
Dida: Ahhhh cara vocês falaram muito baixo. Teve cenas que eu não ouvi/entendi (quase) nada... Não é pra você se achar não, mas cê tava sobrando lá... Só você falava alto. Dá pra ver um trabalho de corpo legal... E aquela coisa de andar de quatro, e do médico que vai rastejando até a Silene... De quem foi essa idéia, da orientadora de dança? Meuu, não significa nada, fica uma ação vazia. Parece que vocês andam de quatro pra justificar o nome da peça.
Eu me explicando: É, tem umas questões bem básicas. A gente fala baixo. Algumas cenas inda tão muito sujas. Mas acho que dá pra resolver.
Ensaio de sábado
Quando me despedi do pessoal na mostra fiz questão de lembrar: Esaio normal amanhã, ás 16h. Só metade do pessoal foi na porra do ensaio. Caralho... Será que por que a Nora faltou no ensaio eles acharam que não precisavam ir? (Quase) NINGUÉM ainda entendeu que não dependemos do vocacional.
Por mais que eles falem de boca cheia: nós somos um grupo. O que diferencia a gente de uma turma do vocacional não é nada. O Vicente, orientador da turma ano passado, falou isso: É todo um processo de passagem, de transição de turma para grupo.
Faz quase um ano que nos encontramos pelo menos uma vez por semana e... Somos uma turminha perdida do vocacional. As meninas só querem saber de brincar, dar risadinha, fazer fofoquinha... "Ahh pq fulano no dia que eu faltei no ensaio ficou puto comigo, e eu não acho isso certo e.. e.. e... "
Eu invensti por que eu queria que desse certo. Queria que todo mundo entendesse junto o que queremos dizer com Os sete gatinhos, e se temos algo a dizer JUNTOS. Mas já vi que isso não rola. Se ao invés de ter escolhido o texto do Nelson tivessemos escolhido qualquer outra coisa o processo seria o mesmo! Se tivessemos escolhido uma adaptação de um musical da Disney ou uma comédia de costumes tosca do século IXX, o pessoal ia fazer da mesma forma e com a mesma vontade.
Talvez não a questão da turma, mas a minha questão pessoal: Intensidade, verdade. Eu tenho algo dizer.
Ensaio do Pé de lama
Como das outras vezes só eu cheguei no horário. Mas normal, bom que comecei a ler um livro enquanto esperava. Eles passaram a peça infantil.
O Roberto deu mil broncas neles: "Isso tá uma merda, se continuar assim eu vou pra casa. Não vale a pena eu perder meu tempo aqui para vocês fazerem essa porcaria."Me passava a impressão de quem tá falando com crianças, "Olha, se não fizer o dever fica sem sobremesa." É absurdo...
Me lembra quando eu fazia teatro na escola e o professor nos tratava exatamente assim. Mais triste ele dando bronca na Sônia: "Sônia seu personagem tá sem expressão etc etc etc... Você não cria!!!"
Quando eu penso em ator-criador não digo só no sentido de criar um personagem. Mas num sentido bem amplo: criar dramaturgias, propor vivências, elementos de cena, cenário... Penso numa coisa coletiva. Sim, o ator vai criar um personagem... Mas ele vai criar encima do que? Da sua leitura pessoal de um texto? Talvez. Talvez esse seja um dever do ator. Mas e o que é que o diretor pode levar para possibilitar que o ator crie (nesse sentido mais amplo)? Levar sensações, imagens, situações, jogos. O ator tem que jogar lado-a-lado com o diretor. Se o ator confiar no diretor sem que exista uma relação de subordinação, talvez exista o coletivo! O coletivo, eu acho, é o que mais chega perto da sinceridade absoluta.
O Roberto falou assim: Eu sou ótimo pra destruir ego de ator. Nunca trabalhos com egoísmo. Não é por nada não, mas acho que esse tipo de diretor é mestre em colocar seu ego acima do ego do ator.
Outra coisa é o teatro infantil. A peça deles tem uma linguarem meio circense, sabe? Por que o teatro infantil sempre mente para as crianças? Por que subestimar? Fazer teatro infantil para vender?? Fazer isso por que? Pra ser bonito? Por vaidade?
Eu assisti uma peça infantil que me agradou. Se chama "Qual será o nome do anão?" Como toda peça infantil, é bem interativa. É baseada num conto de fadas super estranho. Todos os atores se revezam fazendo todos os personagens, masculinos e femininos. Os atores não saem de cena. Dava pra notar uma certa sinceridade e o prazer deles.
Tentar resumir essas coisas só me deu sono.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
A questão é que
Não é só intensidade [necessidade de]. É uma questão mesquinha e adolescente. Talvez envolva ego. E talvez nem seja TÃO adolescente assim. O que posso esperar de mim?
A questão é só essa: estar perdido.
E da intensidade se pretende fazer outra coisa. Me utilizar da intensidade, brincar com ela, rir dela, de todo o sentido de urgência. De bêbado. Saber: o espaço da arte é... todo.
É só estar aberto a tudo, parece simples
Estar aberto não significa entender, é uma predisposição para perguntar! P/ encontrar perguntas! As perguntas todas na prática! Fazer, entrar, se envolver, se deixar tomar, experimentar... para aí sim talvez começar a entender.
O que me irrita é querer ENTENDER, raciocinar, traçar, marcar, desenhar, rascunhar... pra só depois entrar em cena. A cena deve ser um campo perigoso, de entrega. Se houver racíocinio, esboço, existe proteção e superficialidade.
A questão é: Entrega é um encontro.
A questão é só essa: estar perdido.
E da intensidade se pretende fazer outra coisa. Me utilizar da intensidade, brincar com ela, rir dela, de todo o sentido de urgência. De bêbado. Saber: o espaço da arte é... todo.
É só estar aberto a tudo, parece simples
Estar aberto não significa entender, é uma predisposição para perguntar! P/ encontrar perguntas! As perguntas todas na prática! Fazer, entrar, se envolver, se deixar tomar, experimentar... para aí sim talvez começar a entender.
O que me irrita é querer ENTENDER, raciocinar, traçar, marcar, desenhar, rascunhar... pra só depois entrar em cena. A cena deve ser um campo perigoso, de entrega. Se houver racíocinio, esboço, existe proteção e superficialidade.
A questão é: Entrega é um encontro.
domingo, 8 de novembro de 2009
EU QUERO ENCONTRAR OUTRA COISA

Eu quero um teatro de dentro. Que rasgue, corte a carne... A catarse com os valores do teatro pós-moderno. Não o vazio do teatro pós-moderno. Não o teatro pós-moderno. Nem o teatrão de antigamente. Quero verdade. Entrega. Não um diretor carrasco. Não uma turminha perdida do vocacional. Atores criando-pensando. Diretor generoso. Que o exercício da profissão do ator seja sagrada, intensa, inevitável... Que o ator morra se não puder exercê-la. Que eu morra se não puder encontrar esse teatro. Se existir um texto... que ele seja a exploração de uma inquietação interna comum a todos, público, elenco, diretor, mundo... Entrar sem pudores nas inquietações coletivas, da alma, entranhadas na carne, no coração. Todo o sentimentalismo inútil. A exatidão cirúrgica, sequidão necessária. Quero só sinceridade. Que esse dilacerar da carne seja o reflexo também de uma inquietação-grito social. Incitação a uma sociedade pós capitalismo-comunismo-tudo-fudido.
Não que se vá descobrir tudo que buscamos. Não é utópico. Pelo contrário, é prático porque é verdadeiro.
Possível.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
domingo, 16 de agosto de 2009
Minha vida segue essa uma coisa estranha. Em todos os rumos. E a todo o tempo. InterminávelConstante.
- Outra coisa. Sério... Eu penso e consigo tudo que quero. Mas quando consigo já não quero mais.
Talvez devessêmos aprender o tempo das coisas e andar em harmonia com o resto.
"Viu como eu disse 'Meu amor!'?? Eu direi outras vezes, e coisas piores."
- Outra coisa. Sério... Eu penso e consigo tudo que quero. Mas quando consigo já não quero mais.
Talvez devessêmos aprender o tempo das coisas e andar em harmonia com o resto.
"Viu como eu disse 'Meu amor!'?? Eu direi outras vezes, e coisas piores."
terça-feira, 11 de agosto de 2009
RUMO
O que fazia ali?
Tão só,
Sem casa.
E com a boca suja.
O que fazia ali
A vida?
A andar por entre os túmulos.
Tão sem rumo
E sem casa
Tão sem voz
E sem vida.
Tão só,
Sem casa.
E com a boca suja.
O que fazia ali
A vida?
A andar por entre os túmulos.
Tão sem rumo
E sem casa
Tão sem voz
E sem vida.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Livros

"Ela seria fluída durante toda a vida. Porém o que dominara seus contornos e os atraíra a um centro, o que a iluminara contra o mundo e lhe dera íntimo poder fora o segredo. Nunca saberia pensar nele em termos claros temendo invadir e dissolver a sua imagem. No entanto ele formara no seu interior um núcleo longínquo e vivo e jamais perdera a magia — sustentava-a sua vaguidão insolúvel como a única realidade que para ela sempre deveria ser a perdida. [...]"
[ O Lustre - Clarice Lispector ]
Já é hora do corpo vencer a manhã
Abraçar o nada.
Sentir sua respiração desesperada,
Seu corpo mole.
A crueza de suas mãos tristes,
Seus olhos inexpressivos
Surpreendentemente tão coloridos.
O abraço pequeno repleto
De vontade e de urgência.
Frio nas peles resecadas
Que se desejam e não se tocam,
O não encontro
E o abraço forte dado no ar.
poemeta adolescente pseudo-depressivo
Solidão esbranquiçada
E líquida
Escorre brota
Dentro-fora
Do corpo.
Corpo sozinho.
Pensa pouco.
Sente.
Escuta e entende
Tudo.
Olhos fechados
Na meia penumbra.
O vento bate a porta.
O papel estava em branco.
O corpo
Pouco pensante
E sozinho
Em meio
À líquida
E falsa solidão,
Olhos serrados
No quase escuro do quarto,
Deseja sultilmente
Uma morte rápida e prazerosa.
Escreve.
Esquece.
Vive.
E líquida
Escorre brota
Dentro-fora
Do corpo.
Corpo sozinho.
Pensa pouco.
Sente.
Escuta e entende
Tudo.
Olhos fechados
Na meia penumbra.
O vento bate a porta.
O papel estava em branco.
O corpo
Pouco pensante
E sozinho
Em meio
À líquida
E falsa solidão,
Olhos serrados
No quase escuro do quarto,
Deseja sultilmente
Uma morte rápida e prazerosa.
Escreve.
Esquece.
Vive.
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